domingo, 6 de dezembro de 2009

Entrevista com Andréia Ramos

Nascida em 1972, Andréia Ramos sempre gostou muito de ler e escrever. Por se afinar mais com a divulgação de notícias, acabou optando por jornalismo. Ingressou na UFRN num momento de reestruturação do curso, na época, não havia a TVU nem o Laboratório de Comunicação (LABCOM). Contudo, afirma que a experiência valeu à pena. Formada no ano de 1995, Andréia começou a trabalhar aos 21 anos. Iniciou sua carreira no impresso como repórter dos - já extintos – jornal Dois Pontos e revista RN Econômico. Nunca planejou trabalhar na TV, porém, - após fazer um trabalho de vídeo para a faculdade - uma jornalista da TV Cabugi levou o trabalho dela para a emissora. Como eles precisavam de uma repórter, Andréia foi aceita para o cargo. Então, ingressou na Inter TV Cabugi no ano de 1995, como repórter do Bom Dia RN. Hoje, com 16 anos de profissão, além de responsável pelo Bom Dia RN, faz reportagens especiais para todos os jornais, apresenta o Globo Esporte local e é assessora de imprensa da Procuradoria Geral de Justiça do Estado. Andréia também é uma das principais incentivadoras da literatura infanto-juvenil, na imprensa do RN. Por se interessar bastante pelo futuro das crianças brasileiras e por ter participado e contribuído muito no PROERD (Programa Educacional de Resistência às Drogas), recebeu o título de “Mensageiro da Prevenção”.

Grupo - Qual a sua opinião sobre a não obrigatoriedade do diploma de jornalista? A Universidade é dispensável na formação desse profissional?
Andréia Ramos - A Veja publicou um editoral elogioso, dizendo que a medida tinha sido a mais acertada, pois o diploma era um resquício da ditadura. Entretanto, hoje, ele tem uma função totalmente diferente. Naquela época, o diploma restringia a atuação do intelectual que quisesse escrever, pois o governo considerava subversivo ao sistema. Hoje, o diploma é uma qualificação que deve ser exigida de qualquer profissional. . Ser jornalista não é simplesmente uma questão de dom, até porque existem técnicas a serem aprendidas. Sobretudo, a universidade abre os horizontes para a questão da ética, fator primordial na formação de um bom profissional. É extremamente temerário que qualquer pessoa sem qualificação seja jornalista. A notícia é algo efêmero e perecível, quem lida com ela deve ser muito bem preparado. Acredito que o diploma é imprescindível.

G - O mercado de trabalho, tanto no Rio Grande do Norte quando no resto do país, está mais restrito/passa por uma crise devido a essa desregulamentação?
AR - Algo que me deixa feliz em relação ao mercado atual é que, por exemplo, o curso da UNP tem uma grade que estimula o jornalista ao empreendedorismo. O aluno sai da faculdade sabendo que pode ser um empresário da comunicação. Mesmo que ele não se encontre no mercado, pode então abrir a sua própria frente de trabalho. Com a multiplicação das mídias e a facilidade de acesso as pessoas ganham muito com o blog, com a mídia eletrônica e de maneira muito mais fácil do que há alguns anos quando era necessário bater na porta e apresentar o currículo. Hoje existem muitas vertentes para a profissão. Não acredito que o mercado passe atualmente por uma crise. Você pode se apegar ao problema ou pode criar alternativas, eu acredito muito nas alternativas. O jornalista recém formado chega às redações com muito mais domínio da mídia eletrônica o que possibilita a ele construir suas frentes de trabalho.

G - Com a ascensão da internet, você acredita que hoje as pessoas pararam de buscar a informação no telejornal ou tem ele como uma base para buscar as informações na internet? Ou acredita que o público continua consumindo os dois?
AR - Você agora tocou em um ponto importante que é a questão do público. Hoje vivemos em um momento de transição. A internet já é um veículo firmado, sem dúvida nenhuma, como uma busca por notícias, mas o povão ainda não sabe buscar a internet como fonte de informação. A fonte de notícias do povão ainda é a televisão, ainda é o rádio. Em muitas comunidades e para muitos públicos ainda é o rádio. Vá atrás de um torcedor para ver o que ele prefere: se ele prefere acompanhar o jogo na internet ou no radinho de pilha. É uma questão de público. Quando se avalia uma mídia, você tem que avaliar o público. A internet já possui um grande público, mas ainda não é a massa.

G - O público do telejornalismo busca um outro perfil de informação? Diferente do que vai buscar em outro meio como o impresso ou na internet?
AR - Não, acho que isso já existiu mais hoje em dia como as mídias estão mais acessíveis, eu acho que isso começa a se diluir um pouco, principalmente com a convergência das mídias, mesmo que o computador ainda seja “estranho” para uma parcela significativa da sociedade. As mídias estão fazendo uma interface cada vez maior uma com a outra, muito se pregou o fim do jornal impresso e do rádio com a televisão e posteriormente com a internet e eles souberam reagir, hoje em dia cada um tem seu portal na internet, tem ligações entre si e cumprem seu papel em informar.

G – A chegada da TV Digital contribuirá para o fortalecimento dos telejornais locais e para uma maior inserção de profissionais dessa área no jornalismo aqui do estado?
AR - Sim, sem dúvida. Até porque uma característica da TV Digital é essa diversidade de canais, essa variedade de plataformas de comunicação. É aí que entra a utilização do celular e de uma série de outras mídias eletrônicas. Com isso, o jornalismo local deve se firmar muito mais, pois com diversos canais pode-se discutir diversos assuntos. E isso abre frentes de trabalho, o que é muito bom para nós – jornalistas.

G – Para você, uma jornalista conceituada aqui no RN - o que é preciso, no telejornalismo, para se passar credibilidade aos telespectadores?
AR - Para qualquer uma das mídias, quer seja mídia impressa, mídia eletrônica, rádio ou televisão precisa-se ter um norte. O profissional precisa ter uma conduta ética. Ele precisa traçar um caminho e saber o que é certo e o que é errado. Em todos os aspectos de nossas vidas ficamos entre o sim e o não e é essa decisão que definirá a credibilidade do profissional. As pessoas não acreditam em você apenas porque está ali de blazer, com o cabelo escovado, maquiada. As pessoas acreditam em você pelo o que fez ontem. E assim se constrói uma história de credibilidade. As pessoas têm uma visão que televisão é apenas imagem, que é apenas uma menininha ou um menininho de rostinhos bonitos que lêem algo – muitas vezes até escrito por outras pessoas – que não sabe nem o que está lendo. É muito mais que isso. Quando lida-se com audiência e informação é muita responsabilidade e muita transpiração para apurar um trabalho, colocar um trabalho no ar com procedência.

G - Você tinha falado anteriormente da audiência. O que você acha desses telejornais que possuem um caráter sensacionalista?
AR - O sensacionalismo, ou o que agente rotula hoje de sensacionalismo, é uma coisa que na minha visão é do ser humano desde que o mundo é mundo. Mesmo antes da primeira televisão ser ligada, mesmo antes de o primeiro programa de rádio ser transmitido, o sensacionalismo está na essência do ser humano. Agora cabe a você ressaltar ou não, cabe a você responsável por um telejornal, por um programa de rádio, por um jornal, por um portal ressaltar ou não essa qualidade. Qualidade não, que isso não é qualidade. chamar atenção desse aspecto na pessoa ou não, porque todo mundo em menor ou maior escala é atraído por uma notícia sensacionalista, é uma constatação triste essa, mas é a verdade. Um exemplo claro que nem passa pela mídia – nem perto nem longe - um acidente de trânsito: quantas pessoas não param para olhar um acidente de trânsito, estando ele ou não sendo transmitido por uma TV ou por um rádio? Isso está na essência do ser humano, infelizmente, agora você pode aproveitar um espaço que você tem na televisão, por exemplo, que é o meu caso, e aproveitar para falar de educação, do combate as drogas ou você pode aproveitar para ressaltar o sensacionalismo. Então é uma questão de linha editorial, você pode falar do tema drogas, por exemplo, de duas formas diferentes: você pode simplesmente dar a notícia e ressaltar que a cidade está violenta, que é um absurdo e você pode falar das drogas de maneira construtiva como: com o viés da prevenção, da educação. Então linha editorial é que tem que ser discutida- que por onde passa pela questão do sensacionalismo- mas o sensacionalismo é uma coisa que está dentro das pessoas se você vai ou não optar por ele aí é outra discussão.

G - Pegando pelo lado do sensacionalismo e também da educação – que é o que deveria ser passado ao público - gostaríamos de saber a sua opinião sobre a guerra das emissoras Globo e Record, onde minutos preciosos estão sendo desperdiçados.
AR - Eu acho triste isso, porque é um espaço nobre - tanto o da Record quanto o Jornal Nacional- e que estão sendo usados para discutir um questão umbilical das empresas, uma questão que interessa apenas a eles e não à massa. E a massa termina sendo jogada para um lado e para o outro, para ver o que diz um e para ver o que diz o outro. Eu acho nada construtivo, no mínimo.

G - Qual é a importância da linha editorial para você? Já que a notícia virou mercadoria, pois muitas vezes ela atende a questões políticas, principalmente aqui no estado.
AR - Isso vai para a questão da linha editorial, também. Uma questão básica, um elemento básico do ser jornalista é essa questão da imparcialidade, de você saber que a notícia no mínimo dois lados, no mínimo, pelo menos, e esses dois lados têm que ser respeitados, é uma questão elementar.

G - “Os editores constroem o sentido da notícia no jornalismo contemporâneo, afinal, uma imagem vale mais que mil palavras”. Você concorda com essa afirmação?
AR - Não. Fale essa frase sem dizer uma palavra (risos). Acho isso um chavão e que não corresponde a realidade não. A imagem, a comunicação visual, principalmente nesta época de consumo muito rápido das notícias é impactante demais e ninguém vai desmerecê-la, mas a leitura, o texto, principalmente o bom texto, transforma a imagem, sem dúvida alguma.

G - Andréia, o sotaque é padronizado nos telejornais locais, você não acha que isso acaba prejudicando a originalidade local?
AR - Sim, e muito. Sou árdua defensora do nosso sotaque e, às vezes, sou até “xiita” quanto a isso. A Globo treina o repórter de rede para que o Jornal Nacional, principalmente, tenha uma “cara” no Brasil, e quando entrar no ar um repórter, o telespectador já identifique que ele é de tal lugar. Mas eu sou muito feliz nesse aspecto, pois fui a única repórter aqui da TV, nunca treinada pela Globo, que entrei com uma matéria no Jornal Nacional sem alterar meu sotaque, sendo eu mesma, e isso me gratifica muito mesmo. É essencial que respeitemos nossa cultura, temos que primar por isso tanto que nunca alterei meu sotaque, bato muito nessa tecla.

G - Muitas matérias da Inter TV foram premiadas e tidas como importantes desde a sua criação. Qual é o diferencial da emissora e o ponto principal para seu reconhecimento no mercado?
AR - A TV Cabugi tem um compromisso muito grande, uma responsabilidade muito grande com a apuração da notícia, com a checagem e busca pela informação correta, até porque a audiência exige isso de nós. “Ah, então nós nunca erramos?” De jeito nenhum, estamos propícios ao erro e conseqüentemente erramos, mas quando o fazemos a audiência cai em cima de nós. Então esse é o nosso termômetro. Não conseguimos fazer o perfeito, mas é essencial buscar o correto da maneira mais averiguada possível porque há uma exigência muito grande da nossa audiência e essa é a nossa responsabilidade.

G – Como apresentadora do Globo Esporte local e como telespectadora, qual a importância do telejornalismo esportivo? E o que o distancia do entretenimento?
AR - O telejornalismo esportivo é paralelo com o entretenimento. Ele tem aspectos da responsabilidade jornalística, do apurar. E tem muitos aspectos do entretenimento, da diversão. Acho que eles correm ali paralelos. Tem que ter a mesma responsabilidade, sobretudo porque o torcedor é um telespectador altamente exigente e passional, altamente coração, porque o torcedor não é razão. Então, é aí que temos que ser mais exigentes com a notícia, com a informação, com a maneira que se fala, para não pender nem para um lado, nem para o outro. Nem para o ABC, nem para o América, nem para o Alecrim. (risos) Então isso exige da gente muita responsabilidade jornalística, mas também passa pelo entretenimento, sem dúvida.

G - Você tinha falado anteriormente do espaço da educação na TV e recentemente você recebeu um prêmio por realizar um trabalho que incentiva o não uso das drogas pelas crianças, queríamos que você falasse um pouco desse trabalho.
AR - É o seguinte, o PROERD, é um projeto que eu me apaixonei muito e eu acho que todo mundo que se aproximar um pouco vai se apaixona, porque é extremamente contagiante. E esse é um projeto de prevenção às drogas, encampado pela polícia militar, que é quem deveria trabalhar na ostensividade, mas está trabalhando na prevenção. Então, a polícia entrou nesse vácuo, nesse trabalho de prevenção as drogas. Evidentemente que não preencheu todo porque é um vácuo enorme, é uma responsabilidade da família, da escola e de todos, porque quando se fala que ‘a criança é o futuro do estado, da nação’, isso é muito bonito, é até lírico, mas na prática o que você tem feito para acabar com isso? Você como jornalista, o que tem feito se não para acabar, que acabar pode até ser um sonho, mas para enfrentar, para combater isso? Nós vamos apenas deixar o tráfico avançar sobre as nossas crianças, sobre os nossos jovens? E a nossa responsabilidade social? Você como jornalista tem uma responsabilidade social, cada um de nós têm. Então, precisamos assumir esse controle para que o tráfico não avance desenfreadamente sobre nossas crianças. Fiquei muito feliz com esse prêmio e acredito que o PROERD foi muito generoso comigo, pois fiz muito pouco, poderia fazer muito mais. E assim eu acho que nós temos um papel. Não podemos nunca perder de vista esse papel social do jornalismo. Se envolver com o lado financeiro, – nada contra o dinheiro, nós precisamos dele, precisamos de salário, precisamos ser bem remunerados - mas devemos nunca nos apegar apenas a isso, devemos ter sempre em mente que temos um papel social, que somos formadores de opinião, que as pessoas se espelham em nós de uma alguma forma.

G - Com tantos anos de jornalismo, qual foi a notícia que mais lhe marcou até hoje?
AR - Uma cobertura que fiz sobre um mecânico que matou toda a família dele aqui em Dix Septo Rosado. Cheguei muito cedo para cobrir essa pauta já que sempre trabalhei no “Bom Dia RN”, então nós saímos daqui da TV com a informação de um assassinato e quando chegamos ao local descobrimos que eram oito pessoas. Chegamos antes do ITEP e entramos na casa que exalava o cheiro de sangue, os corpos todos expostos em vários lugares da residência; um bebê no berço aparentemente dormindo. E toda aquela cena me marcou muito. Na hora o estado de choque foi muito grande mais depois coube a reflexão, de como é que um homem é capaz de dizimar sua própria família por causa de uma suposta traição de sua mulher? A nossa profissão permite muitas reflexões, e essa é uma das magias da profissão; tanto podemos cobrir eventos maravilhosos como algo dramático como foi o caso é justamente nessa gangorra da vida que nós amadurecemos.

G - Qual seria a notícia perfeita, aquela que você gostaria de transmitir?
AR - Seria a mais feliz das jornalistas se eu pudesse transmitir que as drogas acabaram, que as nossas crianças estão todas protegidas deste mal, e que aquelas usadas pelo tráfico estão recuperadas. Essa seria a melhor notícia, porque são elas que vão construir nosso futuro, então todo cuidado é pouco.

G - Qual é o seu ídolo jornalístico, a pessoa que você mais admira na profissão?

AR - Neide Duarte, uma das jornalistas que possui os melhores textos, uma das visões mais humanas do jornalismo; eu a acho fantástica. Mesmo antes de ser jornalista, adolescente, sempre admirei muito seu trabalho na Globo, não digo que ela me inspirou, mas ela me chamava muita atenção, o jeito como ela tratava a notícia era encantador.

G - Qual foi o evento, o fato, que você queria ter coberto? Algum acontecimento que mesmo antes de você ser jornalista você sonhou ou sonha em transmitir?
AR - Eu acho que deve ter sido muito forte para qualquer jornalista a cobertura do ataque às torres gêmeas, aquele sem dúvida foi um fato extremamente marcante da contemporaneidade. Mas também tem a queda do muro de Berlim que é algo muito interessante. Qualquer um dos fatos marcaria muito a vida de um jornalista que cobrisse de perto esses acontecimentos.

Entrevista realizada pelos repórteres Isabelle Lourenço, Henrique Arruda, Nathália Carrilho e Silvia Correia para a disciplina Introdução ao Jornalismo da UFRN, sob a orientação da professora Socorro Veloso.

Abaixo, repórteres com a entrevistada Andréia Ramos.


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